Você não é santo
Uma longa conversa sobre a caminhada na fé.
Alguns meses depois de nascer estava sendo apresentada no altar da igreja, o pastor, o mesmo que ainda hoje conheço, orava por mim com palavras que alcançavam os céus, rasgavam as nuvens e os anjos se inclinavam para escutar, e, logo depois, festejar. Desde que aprendi a falar, ler e escrever estou naquela igreja, ou melhor, naquelas igrejas. Com minha avó, aos domingos, sentava bem perto do altar, brincava com as crianças e lia a palavra “miséria” na parede. Eu não sabia o que significava. Durante a semana, dormia no colo da minha mãe enquanto o pastor gritava e os fiéis louvavam em línguas estranhas. Foi assim que escolhi Jesus desde que nasci. Aos 14 anos, minha mãe perguntou se eu queria me batizar, eu tinha certeza de que Jesus era meu único salvador, mas estava com medo, ainda era muito suja, então recusei. Aos 15 anos minha mãe perguntou novamente e eu disse sim. No dia do batismo aconteceu um milagre e uma promessa que foi cumprida.
Entrei na faculdade e conheci todo tipo de pessoa e, estudando, descobri todo tipo de fé e suas vertentes. Comecei a ir aos domingos com minha avó para igreja, o caminho era uma tortura, a ida e a volta eram cinzas. Nos domingos de ceia, ia para a igreja com minha mãe, na qual sou batizada. Porém, em algum momento, a igreja começou a reprovar as minhas atitudes, deixando um rastro de palavras ruins. Aos domingos de manhã, acordava cedo e ficava deitada, fingindo que estava dormindo, orando para que chovesse, só para faltar a igreja com minha avó. Nos domingos de ceia com minha mãe, passei a acordar com angústia. Sabia que estava indo para um lugar em que não era bem vinda, bem vista, que não concordava com os posicionamentos e que os olhares me machucavam. Essa era a Igreja Neopentecostal.
Através da faculdade descobri que existiam outras vertentes que não somente a pentecostal, a partir daí começou uma caminhada solitária na fé, mas, para falar disso, vou me apoiar no santo Malthus da minissérie Hilda Furacão (1998).

Ao se confessar ao santo, Hilda Furacão dispara: “Nem mesmo um padre que enche a boca para dizer que ama a humanidade, que vive para a humanidade [...] é muito fácil amar a humanidade, eu quero ver você amar as pessoas de verdade; as pessoas que tem cheiro, que tem cor, que anda, que faz tudo errado. Desses você não consegue chegar perto, quanto mais amar”. Descobri da pior forma que os “santos da igreja” (me refiro aos fiéis) não amavam gente de verdade, de “carne e osso”, eles amavam os perfeitos, os iguais, os que não questionavam, os presentes; dessa forma, eles colocavam o lixo pra fora, abandonados em ruas, por trás do pecado da fofoca. Foi então que, assim como o santo Malthus, eu percebi: “Eu tô perdido, o demônio venceu”.

“Eu sou fraca sim, santo. Eu sou gente, não sou santa como você, eu sou gente; eu sofro, eu escorrego e preciso me segurar em alguma coisa pra me levantar e me manter de pé, igual a todo mundo, menos os santos, claro”. - Hilda Furacão
Acreditava, em algum momento da vida, que eu era quase uma santa; tão boa, tão beata; amável, simpática, educada. A filha perfeita, a neta ideal, um exemplo de cristã. Quando, na verdade, não passava de uma farsa. Gostava de ser adorada por onde passava, exaltada. Se alguém me adorasse iria me sentir divina, e eu gostava de me sentir divina.

“Vaidade, você é um poço de orgulho e vaidade. se eu me ajoelhasse aos seus pés você me idolatrava porque ia se sentir um deus.” - Hilda Furacão
Então, comecei a sentir o pecado corrompendo o meu corpo, a vaidade tomando conta do meu rosto, e, assim, distante da igreja, as portas do céu se fechavam, me sentia como o Malthus depois de beijar Hilda Furacão: “Queimando o corpo inteiro. Quente, pesado, feio. Como se tivesse mudado de forma, não consigo me equilibrar”. Depois disso, o santo se auto flagela tanto até desmaiar, por culpa, como punição; ele não era mais santo.
“O homem tem pavor do livre arbítrio. O que mais amedronta o ser humano é a liberdade de escolha entre dois mundos: ou este ou aquele. O que o homem quer é ser levado pela mão até o paraíso, que é o que a igreja promete aos justos”. - Padre Nelson
Estava amedrontada. Os que deveriam ser meus irmãos em Cristo começaram a ameaçar anular o meu batismo, como se algo espiritual e eterno pudesse ser anulado. Não queriam mais me ver sob o teto da igreja, e eu não quero mais estar lá. A doutrina não é bíblica, o altar está cheio de opinião política e alienação; os gritos já não fazem mais sentido e só o louvor me faz olhar para o céu. A cada dia mais estudava sobre protestantismo/luteranismo confessional, me encontrava, mas ainda tem algo enraizado dentro de mim, onde cresci e fui ensinada, onde dói a cada confronto. Ao mesmo tempo, minha Bíblia estava empoeirada. Me fizeram acreditar que Deus estava somente na igreja, e fora dela eu não seria amada, então, suja com o pecado e os olhares, parei de buscar o Pai.

Gostaria de escrever esse texto depois de domingo, onde vou visitar uma igreja luterana e, confesso, estou morrendo de medo. Me sinto perdida, desviada, vaidosa, culpada, mal vista, expulsa do lugar que deveria me acolher. Sinto que Deus tem me mandado anjos disfarçados de demônios que estão abrindo os meus olhos e me ensinando a olhar para tudo de uma maneira diferente. Quanto mais me afasto do neopentecostalismo, me sinto como o Malthus depois de aceitar estar apaixonado pela Hilda: “Hoje em dia, me sinto irmão de tudo que tem na vida, tudo. Antes só existia eu, mas agora existe o mundo e eu me preocupo com o mundo inteiro, com tudo”.
Depois da Hilda, Malthus deixou de ser padre e passou a fazer parte da Igreja Progressista, lutando pela justiça social. Quando Malthus se entrega ao desejo, a sensação que queima na pele e deforma seu corpo, seu rosto fica mais limpo, sereno, ele é mais humano. Malthus não abandona a igreja, muito pelo contrário, com um terço na mão e uma cruz no peito, ele luta contra a ditadura e reencontra o anjo que lhe abriu os olhos. Ele teve que passar pelo mundo para ter certeza de sua fé, realocar sua fé. A caminhada na fé é turbulenta, cheia de dúvidas e dores. Todas essas dores são muito recentes, e ainda me sinto expulsa, mas Clarice disse que perder-se também é caminho.
Realmente, descobri que não há inocência mais pura do que nosso doce pecado, é somente na loucura e na imundície de ser mundano que sou limpo, que me sinto puro (Take me to church - Hozier).
“Eu sou um cristão e só sei ser assim” - Santo Malthus



Que lindo, irmã! 🤍