Nunca fui uma pessoa sozinha. Desde pequena, sempre tive irmãos e vários amigos, sempre conversei bastante. Nunca fui a padaria sozinha, ou ao parque, ou ao shopping; nunca coloquei os pés em um hospital estando desacompanhada. Mesmo quando me tornei “adulta”, sempre estive rodeada de amigos que iam para todo lugar comigo. Até então. Nunca estive tão sozinha, talvez por escolha própria, talvez pelos infortúnios da vida adulta. Ninguém tem tempo para ir ao médico ou a padraria comigo, e eu não tenho tempo de esperar. Ninguém pode me ajudar a dar vacina na minha gata arisca, então eu saio arranhada. Achei que depois de ter um namorado faria tudo acompanhada, mas nunca estive tão sozinha. Mas isso não é uma coisa ruim, muito menos uma reclamação, isso é um aprendizado, algo que eu precisava.
Crescer.
Caminhar sozinha pela rua ao meio dia, olhar o trajeto de um ônibus que você nunca pegou para ir a um lugar que você nunca foi também faz parte de crescer. Eu mudei muito de uns tempos pra cá, tem sido assustador. Sinto, como diz a fleabag ao padre, que não estou fazendo nada certo e preciso de intervenção divina. Preciso que alguém dite a minha vida porque no “faça você mesmo” está difícil. Ultimamente tenho tomado café sozinha, tenho almoçado sozinha, faço compras sozinha, vou ao médico sozinha. Para muita gente não há novidade em nada disso, mas para mim há um mundo novo, divertido e sombrio. Cresci em uma família desestruturada e sempre excessivamente acompanhada. Eles tinham um medo do homem que poderia pular a janela e me levar, ou do homem que me colocaria em um carro preto no caminho para a padaria. Esse medo não só ceifou minha infância e adolescência, como levou minha vida adulta também. Não poderia fazer nada sozinha, além do medo de fazer. Como resolveria minha vida? Um coisa que meu namorado tem feito é me ensinar que nem sempre ele estará ao meu lado e que eu tenho capacidade de resolver as coisas que precisar.
Porém, esse texto está em um lugar muito distante do empoderamento adulto de fazer as coisas sozinha. Esse texto é sobre uma garotinha que sempre teve medo de ficar sozinha na rua e das histórias mirabolantes que sua família inventou para cortar suas asas e a trancar em seu quarto. O que as famílias desestruturadas e super protetoras esquecem é que um dia essa criança/adolescente vai crescer e terá que enfrentar esse mundo cheio de monstros sozinha, sem instrução nenhuma. Agora, desacompanhada, lidará com seus próprios medos que lhe assombram na rua.
Tenho andado com a solidão na rua, ela é doce, mas não responde as minhas perguntas. Ela cria cenários onde coloca minhas dúvidas, para que assim, até que eu chegue em casa, um ônibus bata, um homem mau apareça, a lua caia sobre a terra e o sol nos queime não existir mais nada. Na rua, meus medos andam ao meu lado, seguram minha mão para atravessar a rua e me falando como um carro pode me atingir; me colocam no ônibus me lembrando que ele pode capotar. Ultimamente tenho estado mais sozinha como nunca estive. Tenho focado mais no caminho; observo com cuidado as pessoas a minha volta; penso em pintar todas as árvores; tenho muito medo de desmaiar enquanto corro. Porém, estou certa de que ela anda de mãos dadas comigo, vê tudo que eu vejo e acredito que andará comigo até nosso último passeio.


