Indizível
Assistir "Maurice" (1987) mudou a química do meu cérebro
“Nós temos que mudar. [...] o inefável vício dos gregos”. (Maurice 1987)
Me encontrei com um amigo na estação de metrô em meio a toda chuva de Salvador. Estava descabelada e perdida às 17hs da tarde, em meio à um cenário de um dilúvio. Horas antes, tinha escutado a experiência de uma mulher lésbica, a mesma que escutei à 5 anos atrás na Santa Rita: “como não vai se casar? Isso é pecado! Não, uma mulher tem que se casar, se não, é errado. Isso vai passar e você vai ver. Vai achar um bom homem e se casar!”
Em contra ponto, hoje tenho 19 anos e sei que irei me casar algum dia, ou não, mas não será pelos mesmos motivos de 5 anos atrás. Em 2023, mandei mensagem para uma amiga cristã e uma influencer cristã, perguntando se ser assexual era pecado, se tinha algum problema. Ambas responderam que não, eu só não gostaria de ninguém, o problema seria ser bi, Pan ou lésbica; também não precisaria me assumir. Hoje entendo que:
“Não, é preciso falar. É assim que se ultrapassa o cume. Ou as montanhas nos obscurecem.” - Risley (Maurice 1987)
Dito tudo isso, ultimamente minha irmã tem cantado muito a música “take me to Church” do Hozier. A parte que mais me prende é quando ele canta: “eu nasci doente, mas adoro isso. Ordene-me que eu me cure.” Esse trecho e a chuva infindável de Salvador, me levou até o filme “Maurice” (1987), e é sobre ele que eu quero falar hoje.
Maurice (1987) conta a história de 2 estudantes da universidade de Cambridge, Maurice Hall e o rico Clive Durham, ambos se apaixonam, mas estão na Inglaterra em 1909, onde a homossexualidade era crime.
Chego em casa, depois de ter conversado com uma garota pela qual me interessei, pego meu celular e vou para varanda mandar um áudio para a minha amiga, quase em sussurros, pois “nunca podemos falar da pessoa por quem estamos apaixonados”. Como poderia 2025 se parecer tanto com a Inglaterra em 1910? No filme, Maurice vai ao médico pedindo para que ele o cure; o cure do “vício dos gregos”, o médico aponta que o que Maurice tem é “indizível” – algo que não pode ser dito, traduzido, que foge do esperado ou do comum. Em trechos seguintes, quando Maurice se mostra não estar curado da doença, mesmo após algumas sessões, o médico diz:
Passei a não aceitar minha natureza humana. Voltei a preferir a morte ao casamento, porque não poderia imaginar outro dia tão agridoce como esse. Voltei a me sentir doente e suja, sem cura por algo que é “indizível”. Tudo que eu amo é Jesus, mas sei que quando souberem vão me expulsar da igreja, pois estou em pecado, e disso eu sei. Neguei por muito tempo até reconhecer que a culpa cristã me atravessa, e digo pra cima e pra baixo que vou queimar no inferno como se não me importasse, mas facilmente pediria para ser enterrada perto do altar da igreja para que conseguisse entrar no céu mais facilmente. Hoje vejo a pessoa obscura que me tornei por não saber lidar com a minha sexualidade.
Frente a uma mulher lésbica falando tudo que já senti, não suportei o confronto da verdade: me levantei e fui embora. Maurice, no fim, aceitou ser quem sempre foi, e Hall se casou com uma mulher porque precisava “mudar”, enquanto assistia a memória do seu único amor e paixão indo embora, caminhando para sua verdade. Descobri muito tarde o que fui a vida inteira, mas tenho medo de me entregar a verdade do que sou.
No fundo da minha alma e no mais raso do meu ser sei o que é certo: fazer como Maurice, que foi viver o amor indizível. Não preciso terminar na janela, observando o passado que não te pertence mais, deitado na cama, ao lado do que você finge gostar para manter um status. Nunca esteja naquela janela, pois a vida é uma só para ser quem você não é, e o arrependimento é eterno. Devo me lembrar disso.






quando vi a trilha sonora, ja sabia que ia me quebrar.